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Jardim Botânico

Publicado: Quinta, 10 de Novembro de 2016, 12h40 | Última atualização em Quinta, 29 de Março de 2018, 16h48 | Acessos: 1392
Plantação chinesa de chá no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, gravura do álbum Viagem pitoresca, publicado em 1835, de Johann Moritz Rugendas.
Plantação chinesa de chá no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, gravura do álbum Viagem pitoresca, publicado em 1835, de Johann Moritz Rugendas.

A data de criação do Jardim Botânico do Rio de Janeiro é motivo de polêmica entre estudiosos do assunto. Não há qualquer referência à sua criação até o alvará de 1º de março de 1811, que determinou como uma das atribuições do presidente da recém-criada Real Junta de Fazenda dos Arsenais do Exército, Fábricas e Fundições a direção de um jardim botânico, destinado à cultura de plantas exóticas, que se mandava formar na fazenda da lagoa de Rodrigo de Freitas. No entanto, há evidências de que o Jardim Botânico se estabeleceu anteriormente junto à Fábrica de Pólvora, que foi instalada no engenho da mesma fazenda da lagoa Rodrigo de Freitas em 13 de maio de 1808. Nesse sentido, o decreto de 12 de outubro do mesmo ano criou o lugar de feitor da fazenda, cujas instruções incluíam que as terras não arrendadas fossem utilizadas “naquela espécie de cultura que for de maior interesse e benefício da Real Fazenda, ou em qualquer outra plantação que lhe for determinada por ordem superior”. Devido a essa determinação, a incorporação das terras nas margens da lagoa de Rodrigo de Freitas aos bens da Coroa, através do decreto de 13 de junho de 1808, é considerado como ato de criação do Jardim Botânico.

Da mesma forma, a bibliografia sobre o tema aponta inúmeras denominações para o estabelecimento: Real Horto, Real Jardim Botânico, Real Quinta e Jardim da Lagoa Rodrigo de Freitas. No entanto, a legislação do período aqui considerado refere-se ao órgão apenas como Jardim Botânico da lagoa de Rodrigo de Freitas.

Até o século XVII, o local ocupado pelo Jardim Botânico foi um engenho de cana-de-açúcar que pertencia à família de Rodrigo de Freitas. Com a vinda da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, o príncipe regente d. João adquiriu a fazenda, com o intuito de ali fundar uma fábrica de pólvora que estivesse à altura da cidade que o acolhia e atendesse às necessidades de segurança da Corte. Carlos Napion, primeiro diretor da Fábrica de Pólvora, foi o responsável pelos reparos e ampliação dos prédios que lá existiam, para que as instalações se adaptassem melhor às novas atividades .

Especialmente durante o século XVIII, países como Inglaterra, França, Espanha e Holanda produziram experimentos de botânica com espécies nativas originárias de suas colônias, utilizando para isso uma política de criação de jardins botânicos coloniais que funcionassem sob a administração de instituições similares àquelas situadas nas metrópoles. (BEDIAGA, 2007, p. 1.134). No Brasil, houve dois empreendimentos na construção de jardins e pesquisas botânicas nos séculos XVII e XVIII. O primeiro, em 1640, foi o jardim elaborado com o empenho de Maurício de Nassau, em Recife, e o segundo, a criação, em 1798, do jardim botânico de Belém do Pará, sob às ordens de d. Maria I.

O jardim criado pelo conde Nassau se destacava por apresentar-se como um espaço útil de conhecimento do mundo natural, reunindo informações sobre diversas espécies de natureza americana, muitas delas remetidas à Europa para enriquecer os jardins botânicos e outras coleções. Além disso, funcionava como um local de recepção e adaptação de espécies estrangeiras enviadas à colônia (GESTEIRA, 2004, p. 9; SANJAD, 2001, p. 33).

O jardim botânico de Belém do Pará possuía uma função estratégica, em virtude de sua proximidade da Amazônia, que era alvo de inúmeras incursões para estudos de botânica. O jardim do Pará deveria funcionar como um entreposto português para intercâmbio de espécies vegetais, dado o potencial da vegetação amazônica para o comércio e a proximidade com as colônias francesas ao norte, que já tinham em funcionamento jardins semelhantes. Além disso, o jardim do Pará vinculava-se a um amplo esforço empreendido pelas autoridades metropolitanas e coloniais para reforçar a soberania portuguesa na região (JOBIM, 1986; SANJAD, 2001, p. 3).

Nesse sentido, o aviso régio de 19 de novembro de 1798 destacou a relevância da criação de estabelecimentos congêneres ao horto de Belém, o qual seria seguido por iniciativas semelhantes que dariam origem aos do Rio de Janeiro, Ouro Preto, São Paulo, São Luís e Salvador (REAL Horto, s.d.). No período de 1808 a 1822, entretanto, encontramos na legislação somente referências ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

As primeiras espécies vindas do estrangeiro para o Jardim Botânico do Rio de Janeiro eram oriundas das Ilhas Maurício e foram trazidas por Luiz de Abreu Vieira e Silva, como presente para d. João. Assim, foram introduzidas as seguintes espécies vegetais: abacateiros, caneleiras, coração de negro, pés de lichia, mosacadeiras, sagú, fruta-pão, cajá e areca. Estas e outras espécies de plantas são citadas no alvará de 1º de março de 1811, assim como alcanforeiras, cravo-da-índia, canela, pimenta e cactos como a cochonilha. Seu cultivo e propagação foram estimulados e levados ao maior grau de perfeição possível com a plantação dos bosques artificiais de madeiras de lei, como parobas, tapinhoãs, canelas, vinháticos e tecas.

A possibilidade de produção de conhecimentos sobre novas espécies vegetais aumentou, proporcionalmente, o poder de difusão das informações entre plantadores e fazendeiros potenciais, facilitando o intercâmbio de plantas entre colônias tropicais e a sua aclimatação (DEAN, 1991, p. 5). Em 1810, o marechal Manoel Marques contribuiu com o envio de algumas espécies. Em 1812, Raphael Bottado de Almeida remeteu ao Brasil as primeiras sementes de chá (Thea viridis L.). A partir daí, houve um grande incentivo à plantação de chá, com a colaboração de colonos chineses que emigraram com o intuito de ensinar o cultivo e a preparação do produto. Posteriormente, houve a tentativa de exportação do chá em 1837, que, todavia, não teve êxito, sendo aproveitado no mercado interno.

O decreto de 11 de maio de 1819 anexou o Jardim Botânico ao Museu Real. Contudo, o órgão esteve subordinado à Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra até 1822, quando passou para a esfera da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino.


Rodrigo Lobo
31 ago. 2011

 

Bibliografia
BEDIAGA, Begonha. Conciliar o útil ao agradável e fazer ciência: Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 1808-1860. História, Ciências e Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 14, n. 4, p. 1131-1157, out.-dez., 2007.

DEAN, Warren. A botânica e a política imperial: a introdução e domesticação de plantas no Brasil. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 8, p. 216-218, 1991.

GESTEIRA, H. M. O Recife holandês: história natural e colonização neerlandesa (1624/1654). Revista da Sociedade Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 2, n. 1, p. 6-21, 2004.

JOBIM, L. C. Os jardins botânicos no Brasil colonial. Bibl. Arq. Mus., Lisboa, v. 2, n. 1, p. 53-120, 1986.

LAVÔR, João Conrado Niemeyer de. Histórico do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Jardim Botânico, 1983.

SANJAD, Nelson. Nos jardins de São José: uma história do Jardim Botânico do Grão-Pará, 1796-1873. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Geociências, Campinas, 2001.

REAL Horto. In: Dicionário histórico-biográfico das ciências da saúde no Brasil (1832-1930). Disponível em: <https://goo.gl/VtqUeD>. Acesso em: 23 mai. 2008.


Documentos sobre este órgão podem ser encontrados nos seguintes fundos do Arquivo Nacional

BR AN, RIO 53 – Ministério do Império
BR AN, RIO 1R – Conselho de Estado
BR AN, RIO NP – Diversos SDH – Códices
BR AN, RIO 2H – Diversos SDH – Caixas
BR AN,RIO 22 – Decretos do Executivo – Período Imperial
BR AN,RIO 23 – Decretos do Executivo – Período Republicano
BR AN,RIO OI – Diversos GIFI – Caixas e Códices
BR AN,RIO KE – Publicações Oficiais – Acervo Geral e Periódicos


Referência da Imagem
Johann Moritz Rugendas. Voyage pittoresque dans le Brésil. Paris: Engelmann & Cie., 1835. OR_2119_DIV3_PL_25

Este verbete refere-se apenas à trajetória do órgão no período colonial. Para informações entre 1822 e 1889, consulte o verbete no Dicionário de Administração Imperial através do link: Jardim Botânico da Lagoa Rodrigo de Freitas

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