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Fábrica de Ferro de São João de Ipanema

Publicado: Quinta, 10 de Novembro de 2016, 12h59 | Última atualização em Quinta, 18 de Julho de 2019, 14h19 | Acessos: 910
Oficina de fabricação de objetos de ferro, serralheria, em prancha da Enciclopédia iluminista de Diderot e d’Alembert, publicada em Paris de 1751 a 1772.
Oficina de fabricação de objetos de ferro, serralheria, em prancha da Enciclopédia iluminista de Diderot e d’Alembert, publicada em Paris de 1751 a 1772.

A Fábrica de Ferro de Sorocaba, mais tarde denominada São João de Ipanema, foi criada pela carta régia de 4 de dezembro de 1810, como um estabelecimento destinado à extração e fundição de ferro das minas existentes na capitania de São Paulo. De acordo com seu ato de criação, suas atividades visavam “dar ferro e servir de base a todas as preciosas manufaturas do mesmo metal, não só para o consumo do Brasil, mas ainda para servir de objeto de exportação, o que será ao comércio destes Estados de suma utilidade”.

Uma das referências mais remotas à produção de ferro na capitana da São Paulo remete à última década do século XVI. Por volta de 1590, tem-se notícia da construção de uma fábrica e de dois engenhos para fundição, sob a responsabilidade de Afonso Sardinha (DANIELI NETO, 2006, p. 83). A origem da Fábrica de Ferro de Sorocaba, no entanto, remonta ao ano de 1765, quando Domingos Ferreira Pereira recebeu a autorização oficial de instalar uma fábrica do metal. Tal autorização fez parte do contexto de reformas que o governador da capitania, Luís Antônio de Sousa, o Morgado de Mateus, buscava realizar em São Paulo, incentivando atividades que consolidassem o poder da Coroa no espaço colonial, de acordo com as políticas de revitalização da economia estabelecidas pelo marquês de Pombal, ele mesmo um entusiasta da exploração do ferro. (ibidem, p. 84-85).

A localidade escolhida pela administração portuguesa para abrigar a fábrica de ferro foi a montanha de Araçoiaba, na vila de Sorocaba, capitania de São Paulo. Esta região possuía uma rica mina de ferro, assim como uma grande extensão de matas, que serviriam de combustível para as atividades da fábrica. Sua importância também se destacava pelo fato de ser uma rota privilegiada de passagem das tropas de muares, que faziam comércio de gêneros de abastecimento, pagando impostos à Coroa e seguindo em direção a outras vilas da capitania paulista, além de possuir uma famosa feira anual de animais, em que eram comercializados cavalos e mulas para o transporte de pessoas e cargas (ibidem; ZEQUINI, s.d.).

Estabelecida inicialmente como uma sociedade acionária reunindo homens de negócios interessados no projeto, a Fábrica passou por diversas dificuldades de caráter financeiro e prático, o que impactou diretamente na sua produção. No entanto, mesmo depois da saída do marquês de Pombal do governo, em 1777, o estabelecimento continuou recebendo incentivos da Coroa até o alvará de 5 de janeiro de 1785, que proibiu o estabelecimento de manufaturas na colônia.

No entanto, a vinda da corte portuguesa em 1808 e a revogação do citado alvará de 1785, trouxeram novo fôlego para a produção de ferro no país. Em Minas Gerais, foram construídas duas fábricas sem a participação da Coroa portuguesa, uma denominada Fábrica do Pilar, no Morro do Pilar, próximo ao Tejuco, e outra chamada Fábrica Patriótica, em Congonhas, que foi um dos estabelecimentos pioneiros na fundição de ferro com a utilização de fornos suecos (DANIELI NETO, 2006, p. 91). Foi nesse contexto que, em 4 de dezembro de 1810, o príncipe regente d. João VI, avaliando ser “de suma utilidade criar no Brasil estabelecimentos de minas de ferro” mandou estabelecer em Sorocaba, sob auspícios do governo, uma fábrica voltada para a extração do metal.

Para esta empreitada, o príncipe mandou providenciar a vinda de mineiros fundidores e de um diretor provenientes da Suécia, além  de estabelecer que os recursos necessários à implementação da fábrica  seriam fruto de uma parceria entre a Coroa e a iniciativa privada. Os fundos particulares viriam da compra de ações, devendo o valor dos recursos empregados pela Coroa ser convertido igualmente em ações, que representariam a participação do governo no empreendimento. As terras e matas pertencentes à Coroa e ocupadas pelas instalações seriam dadas ao patrimônio régio e aos acionistas integrando o fundo da fábrica, sem que entrassem na divisão dos lucros.

Os salários do diretor da fábrica e dos mineiros suecos seriam pagos pelo Erário Régio, conforme fora ajustado com os trabalhadores antes de sua partida, a fim de resguardar o lucro dos acionistas, aumentando o estímulo à participação privada no empreendimento. A estrutura da fábrica incluía, além do diretor e dos mineiros, um tesoureiro e escriturários. A carta régia de 4 de dezembro autorizou ainda a contratação de um representante dos interesses dos acionistas para inspecionar os trabalhos e as contas, que integrava a administração da Fábrica de Sorocaba, ao lado do diretor, de um ministro togado, que serviria como juiz conservador e juiz mineiro, e de um inspetor-geral das minas e matas.

Posteriormente, a carta régia de 28 de agosto de 1811 aprovou algumas iniciativas e deu recomendações adicionais ao governador da capitania de São Paulo, marquês de Alegrete, sobre a administração da fábrica. É interessante ressaltar que, além das decisões de cunho administrativo e econômico, a carta incluía sugestões que procuravam conferir alguns privilégios aos mineiros suecos. Entre as medidas consentidas e sugeridas estava a concessão de datas de terras aos suecos, assim como de escravos para serviços domésticos, a manutenção dos dias santos para aumentar a produtividade, a liberdade de culto, conforme acordado antes de sua vinda, e o estabelecimento de um cemitério para os ingleses e suecos.

Apesar de todo o investimento, no entanto, os trabalhos da Fábrica de Ferro não alcançaram os resultados esperados, o que levou a promulgação da carta régia de 5 de setembro de 1812, através da qual Carlos Napion, presidente da Real Junta de Fazenda dos Arsenais do Exército, Fábricas e Fundições, foi encarregado de iniciar um rigoroso inquérito a fim de averiguar as condições em que se encontrava o estabelecimento.

Dois anos depois ficou evidente, através da carta régia de 27 de setembro de 1814, o malogro da empreitada. Uma vez findado o contrato da fábrica, agora denominada São João de Ipanema, com a companhia de mineiros fundidores, foi reconhecida a falta de perícia dos suecos no desempenho de suas funções. Além disso, foram excessivas as exigências para que eles permanecessem no Brasil e nem mesmo a atuação do diretor Carlos Gustavo Hedberg escapou das críticas, “suposto o seu caráter e o mau método que ele tem seguido na construção dos fornos para a fundição do ferro” .

A carta também determinava que, apesar do regresso do grupo de mineiros para Suécia, permanecia aberta a possibilidade de manutenção dos mineiros mais hábeis, além de ser autorizada a contratação de fundidores e refinadores peritos vindos da Alemanha, para substituírem a companhia sueca. Os alemães deveriam cuidar da produção do metal e instruir os operários livres e escravos na fundição do ferro, devendo o contrato ter duração de dez anos. Ficou encarregado da direção da fábrica Frederico Luiz Guilherme Varnhagen, sargento-mor do Real Corpo de Engenheiros, que seria auxiliado por Guilherme Barão d’Eschwege (MENDONÇA, 1933, p. 189). Além disso, com o objetivo de atender a meta anual de produção da fábrica, foi autorizada a construção de mais dois altos fornos.

As primeiras tarefas que competiam à nova direção eram continuar e concluir as obras de expansão da fábrica e organizar a contabilidade do estabelecimento, que encontravam-se em situação muito ruim. De fato, a nova administração deu prosseguimento às obras e aumentou a produção, mas, mesmo assim um recenseamento feito em 1819 mostrou que o estabelecimento ainda mantinha-se, fundamentalmente, com recursos provenientes da Real Fazenda, a acionista majoritária do empreendimento (DANIELI NETO, 2006, p. 94).


Rodrigo Lobo
6 fev. 2012

 

Bibliografia
BARBOSA, Francisco de Assis. D. João VI e a siderurgia no Brasil. Revista do IHGB, Rio de Janeiro, p. 158-170, 1958.

DANIELI NETO, Mario. Escravidão e indústria: um estudo sobre a Fábrica de Ferro São João de Ipanema (Sorocaba, São Paulo, 1765-1895). Tese (Doutorado em Economia) – Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, 2006.

MENDONÇA, Marcos Carneiro de. O intendente Câmara: Manoel Ferreira da Câmara Bethencourt e Sá (1764-1835). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1933.

ZEQUINI, Anicleide. Técnica e mineradores: a produção do ferro no Brasil nos séculos XVII-XVIII. Disponível em: <http://www.preac.unicamp.br/memoria/textos/Anicleide Zequini – completo.pdf>. Acesso em: 8 jul. 2008.


Documentos sobre este órgão podem ser encontrados nos seguintes fundos do Arquivo Nacional

BR AN, RIO 9K – Série Guerra – Administração – IG2
BR AN, RIO 9P – Série Guerra – Fábricas – IG5
BR AN, RIO 9L – Série Guerra – Arsenais – IG7
BR AN,RIO 22 – Decretos do Executivo – Período Imperial
BR AN,RIO OI – Diversos GIFI – Caixas e Códices
BR AN,RIO B2 – Série Marinha – Ministro – Secretaria de Estado (X M)


Referência da imagem
Encyclopédie, ou, Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, par une société de gens de lettres. Paris: Briasson, 1751-1780. OR_1896_V9_PL01

 

Este verbete refere-se apenas à trajetória do órgão no período colonial. Para informações entre 1822-1889 e 1889-1930, consulte os verbetes Fábrica de Ferro de São João de Ipanema e Fábrica de Ferro de São João de Ipanema

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