Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Página inicial > Dicionário Período Colonial > Laboratório de Química
Início do conteúdo da página

Laboratório de Química

Publicado: Quinta, 10 de Novembro de 2016, 13h48 | Última atualização em Quinta, 29 de Março de 2018, 17h08 | Acessos: 638
Retrato de Antônio de Araújo e Azevedo, o conde da Barca, em gravura incluída no livro Os filhos de El-Rei d. João VI, de Ângelo Pereira.
Retrato de Antônio de Araújo e Azevedo, o conde da Barca, em gravura incluída no livro Os filhos de El-Rei d. João VI, de Ângelo Pereira.

O Laboratório de Química foi criado na Corte pelo decreto de 27 de outubro de 1819, com a finalidade de “analisar os produtos desta e das outras províncias deste Reino, franqueando o processo da análise que neles fizer com as noções convenientes”, como parte do esforço de se adquirir noções práticas de química para que se conhecessem tanto as artes e a farmácia dos produtos existentes no Brasil, quanto suas vantagens para a agricultura.

O estudo da química direcionado para fins pragmáticos remete à valorização da natureza como fonte de riqueza e saber, ocorrida, em Portugal, sob o reinado de d. José I (1750-1777). A política fomentista e as reformas realizadas pelo ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, depois marquês de Pombal, deram destaque ao conhecimento e às aplicações práticas das ciências naturais. Nesse sentido, houve a inserção da química e de outras disciplinas no recém-criado curso de filosofia na Universidade de Coimbra, além da criação de instituições culturais e científicas, como jardins botânicos, gabinetes e museus de história natural e laboratórios de química. Este movimento teve continuidade no governo de d. Maria I, quando se fundou a Academia Real de Ciências em Lisboa, em 1779, um espaço de congregação e divulgação de idéias científicas e literárias, responsável pelo incentivo de expedições destinadas à coleta de materiais para pesquisa e composição das coleções dos museus, as chamadas “viagens filosóficas”.

No Brasil, o estudo e a prática da investigação química tomou impulso com a transferência da Corte em 1808. No entanto, antes disso, alguns brasileiros, estudantes em Coimbra, mereceram destaque nessa matéria, como os membros da Academia Real de Ciências de Lisboa, Vicente Coelho Seabra Silva Teles, autor de diversos livros, entre eles o compêndio Elementos de química, e José Bonifácio de Andrada e Silva, destacado naturalista que realizou importantes pesquisas no campo da mineralogia. Além destes, cumpre citar João Manso Pereira, que, apesar de não ter realizado estudos superiores, publicou cinco livros sobre química utilitária. (FARIAS, 2004, p. 38-39).

Transformada em nova sede do Reino, a cidade do Rio de Janeiro passou a abrigar os órgãos centrais da administração portuguesa, assim como instituições educacionais, culturais e científicas, que seguiriam as diretrizes estabelecidas em Portugal. Criaram-se cursos superiores de medicina e engenharia, nos quais a química era considerada uma disciplina complementar, e instalaram-se órgãos direcionados para atividades científicas como o Jardim Botânico, o Laboratório Químico-Prático, o Museu Real e o Real Arquivo Militar, entre outros.

Ao lado das iniciativas oficiais, foram feitos importantes empreendimentos particulares, como o laboratório de química de Antônio de Araújo e Azevedo, o conde da Barca, que teria iniciado seus trabalhos ainda em 1808. Um dos grandes representantes do pensamento ilustrado português, tradutor dos poetas Alexander Pope e John Dryden, o conde foi um grande incentivador de atividades científicas e culturais. Coube a ele trazer os prelos e tipos que foram utilizados no início da Impressão Régia, além de sua biblioteca particular, que começou a ser organizada em 1787 e chegou a mais de 74 mil volumes, além dos instrumentos que comporiam seu laboratório (SCHWARCZ, 2002, p. 357).

Dirigido por José Caetano de Barros, boticário português, o laboratório do conde da Barca chegou a elaborar preparações químicas para o Hospital Real Militar, apesar da existência de um órgão oficial para este fim, o Laboratório Químico-Prático, e a realizar diversas experiências com vinhos e aguardentes, que constituíram suas principais receitas. O laboratório também servia para a preparação de boticários e era utilizado pelos alunos da Academia Médico-Cirúrgica. A partir 1818, um laboratório de farmácia foi anexado ao de química, ampliando suas atividades (SANTOS, 2004a, p. 346; idem, 2007, p. 1.039).

A criação do Laboratório de Química em 1819, mesmo ano em que foram suspensas as atividades do Laboratório Químico-Prático, realizou-se com a incorporação, através do decreto de 28 de agosto de 1820, dos instrumentos e da própria casa do conde da Barca, falecido em 1817. Além disso, o decreto de criação do laboratório já havia encarregado da direção dos trabalhos o mesmo José Caetano de Barros, o que, de certa maneira, dava continuidade às atividades desenvolvidas quando o laboratório era particular. Após esse ato, não houve qualquer regulamentação ou menção aos trabalhos do Laboratório de Química.


Angélica Ricci Camargo
31 ago. 2011

 

Bibliografia
FARIAS, Robson Fernandes de. História da química no Brasil. Campinas: Átomo, 2004.

GONÇALVES, Ayrton Luiz. Difusão da química no Brasil (1808-1934). Rio de Janeiro: Sobrerodas, 1993.

MUNTEAL FILHO, Oswaldo. O rei e o naturalista. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE D. JOÃO VI: um rei aclamado na América, 1999. Anais… Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2000. p. 140-160.

RHEINBOLDT, H. A química no Brasil. In: AZEVEDO, Fernando de (coord.). As ciências no Brasil. Rio de Janeiro: Melhoramentos, s.d. v. 2. p. 9-108.

SANTOS, Nadja Paraense dos. Laboratório Químico-Prático do Rio de Janeiro: primeira tentativa de difusão da química no Brasil (1812-1819). Química Nova, São Paulo, v. 27, n. 2, p. 342-348, 2004a. Disponível em: <https://goo.gl/neeuGD>. Acesso em: 22 mai. 2008.

____. Os primeiros laboratórios químicos do Rio de Janeiro. In: ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA, 11., 2004b. Anais… Rio de Janeiro: ANPUH, 2004. Disponível em: <https://goo.gl/Y2unss>. Acesso em: 22 maio 2008.

____. Passando da doutrina à prática: Ezequiel Corrêa dos Santos e a farmácia nacional. Química Nova, São Paulo, v. 30, n. 4, p. 1.038-1.045, 2007. Disponível em: <https://goo.gl/RmKYfd>. Acesso em: 26 mai. 2008.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa à independência do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


Referência da imagem
Ângelo Pereira. Os filhos de El-Rei D. João VI: reconstituição histórica com documentos inéditos que, na sua maioria, pertenceram ao Real Gabinete. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1946.
OR_4385

Fim do conteúdo da página