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Fábrica de Ferro de São João de Ipanema

Publicado: Sexta, 11 de Novembro de 2016, 14h40 | Última atualização em Quinta, 18 de Julho de 2019, 14h20 | Acessos: 1329

Criada pela carta régia de 4 de dezembro de 1810, na vila de Sorocaba, capitania de São Paulo, a Fábrica de Ferro de Sorocaba, denominada Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema a partir de 1814, destinava-se à extração e fundição de ferro, voltada para o abastecimento do mercado interno e para exportação. O investimento na produção de ferro fez parte dos esforços lusos em modernizar a economia, sob inspiração do saber cientifico ilustrado que caracterizou a segunda metade do século XVIII. Com a Revolução Industrial, a pesquisa mineralógica e a produção de ferro e aço receberam incentivo do governo português, com a implantação de fábricas em Portugal e na América portuguesa (VARELA, 2009, p. 159).

Teve suas atividades iniciadas em 1765, quando Domingos Ferreira Pereira obteve privilégio exclusivo para exploração de ferro na região. Apesar da importância estratégica, a iniciativa enfrentou diversas dificuldades que culminou com o alvará de 1785 que proibiu o funcionamento de fábricas e manufaturas no Brasil, com exceção daquelas que produzissem tecidos grossos destinados à vestimenta de escravos. A vinda da corte portuguesa para a colônia em 1808 e a revogação deste alvará possibilitaram a retomada da exploração da metalurgia em vários locais do Brasil, como em Sorocaba.

Uma parte dos recursos para sua instalação seria proveniente da Real Fazenda e outra, de particulares, que teriam representação na administração. A fábrica constitui-se num grande complexo econômico que ocupava uma vasta área com inúmeras edificações, ampliada progressivamente ao longo dos anos. São João de Ipanema era formada por casa de fundição, administração, armazéns de carvão, açude, senzalas, moradias dos operários, fábricas de armas brancas, hospital, oficinas, quartel, represa e forno de cal (SANTOS, 2009, p. 35). A fábrica contou com uma grande quantidade de mão-de-obra, especialmente escravos africanos, mas também trabalhadores livres, nacionais e estrangeiros.

Inicialmente foram trazidos da Suécia mineiros e o diretor, Carl Gustav Hedberg, cuja gestão foi marcada por conflitos e pelos escassos resultados, que levaram à sua demissão em 1814. Hedberg foi substituído pelo engenheiro Ludwig Wilhelm Varnhagen, que ficou na direção até 1821, quando a fábrica teve um período de recuperação, com a construção de dois altos fornos, inaugurados em 1818, a contratação de mestres fundidores alemães, a conclusão dos edifícios e a organização da escrituração contábil (DANIELI NETO, p. 2006, p. 93).

A direção da fábrica passou ao capitão Rufino José Felizardo e Costa (1821-1824) e Antonio Xavier Ferreira (1824-1834), período em que entrou em acentuado declínio. Enfrentando problemas de várias ordens, especialmente a baixa demanda no mercado interno e dificuldade de transporte para escoamento da produção, o ferro de Sorocaba tinha um preço pouco competitivo, o que tornava o empreendimento deficitário, situação que perdurou ao longo do Primeiro Reinado. Seu alto custo de manutenção somava-se à falta de investimentos, sendo o Estado um de seus únicos compradores, o que não era suficiente para suprir seu custeio (SANTOS, 2009, p. 42).

Em 1825, pela decisão n. 78, de 29 de março, a Fábrica de Ferro de S. João de Ipanema, então sob a responsabilidade da Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra, passou para a Secretaria de Estado dos Negócios do Império. Tal decisão foi revista em 1831 pela lei de 15 de novembro, que orçou a receita e fixou a despesa para o ano financeiro de 1832-1833, que não apenas submeteu a fábrica novamente à pasta da Guerra, mas também designou verba do orçamento imperial para sua manutenção. Na década de 1830, a fábrica teve períodos de relativa prosperidade, com a expansão do mercado consumidor de produtos voltados para a lavoura canavieira em São Paulo, que aumentou sua receita. No fim dessa década, verifica-se a queda na venda desses produtos e o Estado assume o lugar de seu principal comprador, adquirindo munição e ferro destinado ao Arsenal do Rio de Janeiro. Foi também nesse período que foram contratados trabalhadores alemães, na administração do major João Bloem, com o objetivo de aumentar a produtividade da fábrica. Porém, um ano depois, a maior parte dos operários havia abandonado o estabelecimento (SANTOS, 2009, p. 43-53).

A partir da década de 1850 a fábrica entrou em franca decadência relacionada ao avanço da cafeicultura e abandono do plantio da cana, cuja lavoura absorvia grande parte da produção e foi duramente atingida pelo fim do tráfico negreiro e pela substituição do escravo pelo trabalhador livre (SANTOS, 2009, p. 55). Além disso, mantinha-se o quadro de precariedade das estradas, custo elevado da produção e concorrência estrangeira, situação agravada pelo crescimento de pequenas siderurgias ao longo do período, agravando a precária situação financeira da fábrica.

Em 1850, o artigo 11 da lei n. 555, de 15 de junho, autorizou o governo a arrendar a Fábrica de Ferro de Ipanema. Como só houve uma proposta de arrendamento, em 1860 o governo imperial suspendeu seu funcionamento, mantendo apenas o pessoal suficiente para o plantio das árvores e conservação dos edifícios. Grande parte do pessoal e material da Fábrica Ipanema foi destinada à unidade fabril que se mandou estabelecer na província de Mato Grosso, de acordo com o artigo 7º da lei n. 1.042, de 14 de setembro de 1859 (BRASIL, 1860, p. 10). Porém, como o empreendimento de Mato Grosso não deu certo, o governo encomendou dois relatórios para avaliar a situação de Ipanema: do metalurgista Julius Bredt (1862) e do engenheiro Guilherme Schuch Capanema (1863), que atestavam seu mau estado de conservação (SANTOS, 2009, p. 60-65).

O relatório ministerial de 1863 informa sobre a necessidade de se aproveitar Ipanema “não só para a fundição de artilharia e máquinas de guerra, como para a produção do aço e do ferro maleável, necessários ao fabrico de armamentos” (BRASIL, 1863-1, p. 8). Com a Guerra do Paraguai (1864-1870) a fábrica volta a funcionar, sob a direção de Joaquim de Souza Mursa, recebendo um regulamento provisório pela decisão n. 422, de 25 de novembro de 1867. Ipanema foi responsável pelo fornecimento de armas brancas e munições, mas sua produção não foi capaz de suprir completamente as necessidades do Exército, em face da situação de abandono em que se encontrava a fábrica. Sua retomada foi um processo bastante lento: prédios e maquinaria estavam deteriorados, era necessário adquirir novos equipamentos, havia falta de mão-de-obra e escassez de matas para fornecer combustível necessário ao seu funcionamento (DANIELI NETO, p. 2006, p. 102-5).

A lei n. 2.692, de 20 de outubro de 1877, que aprovou o orçamento do Império para os exercícios de 1877-1878 e 1878-1879, designou que o dispêndio da Fábrica de Ferro Ipanema se daria pela Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Assim, pelo decreto n. 6.727, de 3 de novembro deste ano a fábrica foi oficialmente transferida para a Secretaria de Agricultura. Tal mudança obedeceu aos mesmos princípios que nortearam a criação da Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas em 1860: o fomento à modernização e ao progresso, que colocava temas relativos a estradas de ferro, abertura de vias, navegação, telégrafos e demais serviços relacionados aos avanços tecnológicos sob sua jurisdição (GABLER, 2012).

Durante a década de 1870, a fábrica voltou a produzir, mas enfrentava alguns dos mesmos desafios e obstáculos já elencados, oscilando entre períodos de maior e menor produtividade. Nesse período, ressaltam-se também melhoramentos importantes que favoreceram a retomada da Fábrica Ipanema, como a inauguração do ramal da estrada de ferro Sorocabana, que permitiu o escoamento da produção diretamente para a capital da província. Além disto, a produção de ferro foi beneficiada com a introdução de benfeitorias como, por exemplo, “novo forno, prédios para refino do metal, forja, modelagem e laminador” (DANIELI NETO, p. 2006, p. 105). No entanto, a concorrência sofrida com o produto importado, que atingia o ferro gusa e as obras moldadas, colocava a fábrica em situação de desvantagem, tendo limitado seu mercado consumidor, especialmente nos centros urbanos maiores (SANTOS, 2009, p. 127). A crise financeira de Ipanema permaneceu ao longo dos anos. Mesmo sem estrutura adequada e com elevado custo de mão-de-obra, o governo continuou a financiar o empreendimento, o que gerou diversas manifestações nos debates políticos e intelectuais travados em torno do problema.

Uma questão que parece ser fundamental para os desvios de rota da Fábrica Ipanema refere-se, na realidade, à infraestrutura da economia brasileira no século XIX. Em especial, a carência de uma rede de transportes eficientes foi uma reclamação constante dos inúmeros relatórios apresentados pelos administradores da fábrica aos ministérios aos quais estavam subordinados. A boa qualidade da produção de Ipanema foi ressaltada por alguns de seus diretores, entretanto a concorrência era impossível, pois o custo de transportar os artigos para dentro ou fora da província de São Paulo elevavam os preços a patamares sem precedentes (DANIELI NETO, p. 2006, p. 115).

Considerada estratégica para o projeto de modernização da economia, a fábrica recebeu investimentos do governo imperial na década de 1880, especialmente em 1882 e 1883, o que não foi suficiente para garantir os déficits operacionais. Apesar disso, o governo continuaria investindo na Fábrica de Ferro Ipanema até o fim do Império, sustentando um projeto que visava garantir a implantação da siderurgia no país (SANTOS, p. 167).


Dilma Cabral
10 jun. 2016

 
Bibliografia
BRASIL. Decisão n. 422, de 25 de novembro de 1867. Manda observar provisoriamente, o regulamento de 25 de novembro de 1867, para a Fábrica de Ferro de São João de Ipanema. Coleção das decisões do Governo do Império do Brasil, Rio de Janeiro, p. 439-51, 1868.

____. Decreto n. 6.727, de 3 de novembro de 1877. Transfere para o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas a Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, na Província de São Paulo. Coleção das leis do Império do Brasil. Rio de Janeiro, v. 2, p. 867, 1877.

____. Relatório apresentado à Assembleia Geral Legislativa na primeira sessão da décima primeira legislatura pelo ministro e secretário do Estado dos Negócios da Guerra marques de Caxias. Disponível em: <https://goo.gl/4ybxpf>. Acesso em: 6 mai. 2016.

DANIELI NETO, Mário. Escravidão e indústria: um estudo sobre a Fábrica de Ferro São João de Ipanema – Sorocaba (SP) – 1765-1895. Tese (doutorado). Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Economia, 2006.

RIBEIRO, Mariana Alice Pereira Schatzer. Entre a fábrica e a senzala: um estudo sobre o cotidiano dos africanos livres na Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema – Sorocaba – SP (1840-1870). 2014. 185 f. Dissertação (mestrado). Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras de Assis, 2014.

SANTOS, Nilton Pereira dos. A Fábrica de Ferro S. João de Ipanema: economia e política nas últimas décadas do Segundo Reinado (1860-1889). Rio de Janeiro: Multifoco, 2013.


Documentos sobre o órgão podem ser encontrados nos seguintes fundos do Arquivo Nacional

BR AN, RIO 9K – Série Guerra – Administração – IG2
BR AN, RIO 9P – Série Guerra – Fábricas – IG5
BR AN, RIO 9L – Série Guerra – Arsenais – IG7
BR AN,RIO 22 – Decretos do Executivo – Período Imperial
BR AN,RIO OI – Diversos GIFI – Caixas e Códices
BR AN,RIO B2 – Série Marinha – Ministro – Secretaria de Estado (X M)


Referência da imagem

Julius Meili. Die auf das Kaiserreich Brasilien bezuglichen Medaillen: (1822 bis 1889), 1890. OR_1808

 

Este verbete refere-se apenas à trajetória do órgão no período imperial. Para informações entre 1808-1822 e 1889-1930, consulte os verbetes Fábrica de Ferro de São João de Ipanema e Fábrica de Ferro de São João de Ipanema

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