Previous Page  13 / 141 Next Page
Information
Show Menu
Previous Page 13 / 141 Next Page
Page Background

Caderno Mapa n.5 - A Secretaria de Estado do Negócios do Império

Como mencionamos, a Secretaria de Estado dos Negócios do Império esteve, frequentemente, no

centro dos acontecimentos que determinaram a evolução política e institucional do recente Estado

brasileiro. Tendo examinado o contexto político mais amplo que caracterizou o Império, passemos

agora a acompanhar de perto as ações da secretaria mais diretamente relacionadas com as suas

competências imediatas.

A primeira sede da Secretaria do Império era dividida com a da Secretaria da Justiça e ficava na rua

do Passeio, n. 42, em um prédio comprado por d. João VI para a oficina da Impressão Régia e que

havia sido residência do primeiro conde da Barc

a 4 .

Ali ela permaneceu por todo o Primeiro Reinado e,

talvez, durante os anos iniciais do Segundo, havendo indícios de sua atividade na rua da Guarda Velha,

n. 3, atual rua Primeiro de Março, em algum momento entre 1840 e 1876. No período imperial, o órgão

seria transferido uma última vez, em 1877, para a Praça da Constituição, n. 63, onde permaneceria até

1889 (LACOMBE, 1984, p. 3).

Ostentando atribuições voltadas para a “difusão entre os homens livres do Império do Brasil dos

valores, normas e padrões que distinguiam as 'Nações Civilizadas'” (MATTOS, 1994, p. 191), o papel da

Secretaria do Império na construção do Estado imperial centrou-se na execução do projeto

“civilizador”, que fornecia os parâmetros para a constituição da emergente nação brasileira, idealizado

pela elite política, ou seja, o Partido Conservador, no poder após 1834. Tal projeto, balizado pelo ideal

de civilização em voga, caracterizado pelo avanço das ciências, das relações sociais e da organização

política, pela noção de prosperidade econômica e pela eliminação de práticas tidas como atrasadas ou

bárbaras, resumir-se-ia, enfim, em “assegurar o primado da Razão, o triunfo do Progresso, a difusão do

espírito de Associação, a formação do Povo” (MATTOS, 2004, p. 294). Neste contexto, as ações da

Secretaria do Império compreendiam, por exemplo: o levantamento da população, através da

organização do registro civil, dos recenseamentos e da regulamentação dos direitos dos estrangeiros; a

saúde pública; a educação; a regulamentação das profissões; a organização das eleições; o fomento das

atividades econômicas; a catequese dos índios e a colonização.

4

Antônio de Araújo e Azevedo, conde da Barca (1754-1817),

um dos grandes representantes do pensamento ilustrado português, foi

conselheiro de Estado e ocupou as pastas do Reino e a dos Negócios Estrangeiros e da Guerra em Portugal. Acompanhou a família real

ao Brasil, onde manteve sua função de conselheiro, estando à frente das secretarias dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos e

dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, chegando a assumir todas as pastas do governo. Na viagem ao Brasil trouxe sua coleção de livros

da área de mineralogia, acervo mais tarde recolhido à Biblioteca Nacional, e um vasto conjunto de instrumentos de análise química para

uso em seu laboratório particular que, em 1819, seria incorporado pelo Estado, dando origem ao Laboratório Químico. Em 1814, depois

de se dedicar por seis anos a estudos científicos, retornou à política e foi nomeado para a pasta dos Negócios da Marinha e Domínios

Ultramarinos. Incentivou a propagação do cultivo de diversas plantas, como o chá no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e foi responsável

pelo estabelecimento da Imprensa Régia e pela fundação da Sociedade Auxiliadora da Indústria e Mecânica, que se tornaria, em 1831,

Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional. Foi um entusiasta da viagem dos artistas franceses ao Brasil, que ficariam conhecidos na

historiografia como a “missão artística francesa”, intervindo a favor deles junto ao príncipe regente, pois percebia na vinda de cientistas e

intelectuais e na criação de uma escola de ciências, artes e ofícios a oportunidade de difusão dos valores da civilização francesa.

13